Debate sobre o crime de racismo se fortaleceu após vendedor de frutas de Palmas sofrer injúrias raciais e ter o carro incendiado. Casos de racismo aumentam no Tocantins em comparação com o mesmo período de 2021
Por mais que muitas pessoas tentem ignorar, o racismo ainda é uma realidade enfrentada por milhares de brasileiros e brasileiras diariamente. E as ofensas vão desde colocações sutis, reproduzidas pela sociedade ao longo dos anos, até xingamentos e agressões que podem custar vidas. No estado, já são 11 denúncias sobre o crime em 2022 a mais que em 2021, mas há casos que não são levados às autoridades.
Pessoas negras que precisam lidar diariamente com o público sabem bem quando são ofendidos. E a situação não passa despercebida. Trabalhando como flanelinha em uma das avenidas de Palmas, Dejane de Souza Carvalho já ouviu muitos xingamentos e teve que aguentar.
“Sai nego… Não estou precisando… Eu tenho uma câmera aqui no carro. Isso para mim já é racismo. Machuca”, contou.
Na terça-feira (2), o vendedor de frutas Hiaggo Henrique teve o carro incendiado, perdeu toda sua mercadoria, de onde tira o sustento. Mas além dessas perdas, ele sofreu xingamentos racistas do suposto agressor. E essa situação foi considerada mais dolorosa do que as perdas financeiras.
Vendedor Hiaggo Henrique sofreu xingamentos por causa da cor da sua pele
TV Anhanguera/Reprodução
“Preciso que alguém me dica o que vai para com o racismo. Quando vou ter a oportunidade só de viver?”, lamentou o vendedor ambulante.
Identificação dos casos
Não é sempre que se consegue identificar os casos de racismo, de acordo o sociólogo Sérgio Roberto, já que o preconceito pode estar escondido nos detalhes das falas e atitudes.
“Quando falamos ‘negro do cabelo duro’ ou ‘quando o negro não faz uma coisa errada na entrada faz na saída’. Quando nós começamos a estigmatizá-lo, quando entram num local público e começamos a vigiá-lo. Então é muito importante a gente entender que esse sentimento está enraizado porque o preconceito racial é estrutural no Brasil há séculos”, explicou o sociólogo.
Por causa racismo estrutural, o empresário Gildevam Nunes Moraes já teve que enfrentar situações preconceituosas na vida. Em um episódio, na hora de entrar em um elevador, ele deu a preferência a pessoas entrarem primeiro. As pessoas teriam entrado o informaram que o elevador de serviço estava ao lado
“Naquele momento eu fiquei sem entender o que estava acontecendo. É real e existe muito a situação do preconceito no nosso país”, disse o empresário.
O jovem aprendiz Rodrigo de Oliveira Santos, de 17 anos, também já passou por situações características de racismo. “Quando chego perto de casa já está meio escuro e eu vejo pessoas desviando o caminho, mesmo vendo que estou uniformizado. Isso é chato”, contou. Ele relembrou ainda que quando tinha 12 anos, enquanto era apresentado aos alunos um filme que tinham imagens de macacos, os colegas diziam que era ele.
Denúncias de racismo no Tocantins
O número de crimes raciais aumentaram no Tocantins em comparação com o mesmo período de 2021. Em 2022 já são 14 denúncias, contra três do ano passado. Mas o número pode ser ainda maior, já que muitas pessoas que recebem as ofensas não buscam seus direitos.
“Existe o fenômeno da subnotificação. É um crime inafiançável, imprescritível, de ação penal pública incondicionada, ou seja, a polícia tem o dever de agir. Tão logo quando tomamos conhecimento desse crimes instauramos as investigações para que sejam encaminhadas para o Ministério Público e Judiciários”, explicou o delegado Marcelo Falcão.
Estatísticas
De acordo com levantamento do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatísitica (IBGE), 11,7% da população do estado se considera negra, 67,8% se define como parda e 19,1% como brancas.
Para o sociólogo, isso pode ser analisado como uma dificuldade da população negra em assumir a cor da pele. “Ser negro no Brasil se torna pejorativo. Nesse sentido, como um dispositivo para tentar amenizar isso foram utilizado alguns vocábulos como moreno, moreninho, morenão, para tentar o embranquecimento. Na verdade é uma negação da nossas negritude, que compõe a nossa sociedade brasileira”, comentou.
Como identificar?
O crime de racismo é um ato praticado contra um grupo em si, seja ele com palavras de ofensa na questão de etnia ou religiosidade, conforme explica o advogado Bruno Noguti. “A previsão de pena referente a crimes de racismo pode chegar até cinco anos além de multa”, disse.
A Defensoria Pública oferece suporte às vítimas do crime de racismo. “Procure uma delegacia especializada ou então a Defensoria Pública de sua cidade para que possamos auxiliar com as providências cabíveis”, alertou o defensor Sandro Ferreira Pinto.
Caso do vendedor de frutas
O homem, de 28 anos, suspeito de atear fogo no carro do vendedor de frutas Hiaggo Henrique, em Palmas, está preso desde a madrugada desta quinta-feira (4), na Unidade Penal Regional.
Ele foi localizado na noite de quarta-feira (3), por volta das 19h30 pela Polícia Militar (PM). Ele foi levado para o local onde o veículo de Hiaggo está estacionado e depois seguiu para uma delegacia da capital. De acordo com a Secretaria de Cidadania e Justiça (Seciju), após os procedimentos na delegacia ele foi levado para a Unidade Penal, por volta da meia noite.
Na tarde desta quinta-feira (4), a prisão do suspeito foi convertida em preventiva pela Justiça.
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Fonte: G1 Tocantins


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