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Entretenimento

Com verve, Alfredo Del-Penho e Pedro Paulo Malta traçam iguarias do samba no irretocável álbum ‘Bicudos dois’

dezembro 10, 2025Nenhum comentário0 Visitas


Alfredo Del-Penho (à esquerda) e Pedro Paulo Malta lançam amanhã, 11 de dezembro, o álbum ‘Bicudos dois’, sequência do álbum ‘Dois bicudos’ (2004)
Isabela Espíndola / Divulgação
♫ OPINIÃO SOBRE ÁLBUM
Título: Bicudos dois
Artista: Alfredo Del-Penho e Pedro Paulo Malta
Cotação: ★ ★ ★ ★ ★
♬ Defensores da teoria de que a obra inicial de Chico Buarque descende da linhagem do samba de Noel Rosa (1910 – 1937) encontram ótimo argumento no samba-choro Desafio do malandro, composto por Chico para a trilha sonora do filme Ópera do malandro (1985). Nessa música, pérola que se tornou rara na obra do compositor, Chico se equilibra entre a verve de Noel e o breque do samba de Moreira da Silva (1902 – 2000).
Regravado somente uma vez, sem repercussão, o samba-choro Desafio do malandro reaparece com toda a graça em Bicudos dois, álbum que chega ao mundo amanhã, 11 de dezembro, em edição da gravadora Biscoito Fino, juntando novamente os cantores Alfredo Del-Penho e Pedro Paulo Malta em torno do samba.
Além de reverberar no samba de Chico, a verve do Poeta da Vila reaparece em estado puro no samba É preciso discutir (Noel Rosa, 1932), outra joia rara do repertório lapidar.
Sequência tardia do álbum Dois bicudos (2004), lançado há 21 anos com sucesso de crítica, Bicudos dois é disco valorizado pelo entrosamento dos cantores, pela surpreendente e extraordinária seleção de repertório – composto em maioria por relíquias colhidas pelos artistas no baú da música brasileira dos anos 1930, 1940 e 1950 – e pelos arranjos, a maioria de Paulo Aragão, diretor musical do álbum gravado entre março e abril.
Na seara dos arranjos, aliás, cabe ressaltar a combinação de piano e bateria que conduz Pergunte aos meus tamancos (1936). É no piano de Fernando Leitzke e na bateria quebra-tudo com suavidade de Marcus Thadeu que reside o suingue da gravação desse samba que, em setembro de 1936, marcou a estreia do compositor gaúcho Lupicínio Rodrigues (1914 – 1974) no mercado fonográfico na voz do conterrâneo Alcides Gonçalves (1908 – 1987), cantor e compositor creditado como parceiro de Lupi. Esqueça o Lupicínio amargurado dos sambas-canção. Com versos onomatopaicos, o samba Pergunte aos meus tamancos tem a leveza que pauta o álbum Bicudos dois.
“Quando eu canto meu sambinha batucada / A turma fica abismada / Com a bossa que eu faço / Faço, não me embaraço / Porque não há tempo / Marco o meu contratempo / Dentro do compasso / Quem não tiver o ritmo na alma / E nem cantando com mais calma / Faz o que eu faço”, rimam Alfredo Del-Penho e Pedro Paulo Malta em O que vier eu traço (Alvaiade e Zé Maria, 1945) com canto exteriorizado e ginga mais próxima das rodas de pagode do que da bossa microfônica exaltada no samba lançado há 80 anos por Ademilde Fonseca (1921 – 2012), cantora entronizada como a rainha do choro.
O que vier eu traço abre o álbum Bicudos dois como carta de princípios musicais da dupla de solistas. Em essência, Bicudos dois receita a alegria, a bossa e o samba como forças motrizes da vida.
“Há muita gente que não sabe aproveitar / A maravilha, o sabor que a vida tem / Eu aproveito a minha mocidade / Enquanto a morte cochila / Eu vou vivendo muito bem”, avisam os cantores nos versos de Não levo nada não (Raimundo Olavo, 1960), preciosidade do repertório da cantora Aracy de Almeida (1914 –1988) reavivada com o arranjo choradinho do cavaquinhistas Jayme Vignoli, também criador do arranjo vivaz de Seja breve (Noel Rosa, 1935) em gravação pontuada pelo sopro do clarone de Rui Alvim.
Música inédita em disco, mas já cantada por Pedro Miranda em shows pelo menos desde 2019, Prece do jangadeiro (Pedro Amorim) ecoa de início as canções praieiras de Dorival Caymmi (1914 – 2008) para depois entrar na roda entre a Bahia e o Rio de Janeiro. De Caymmi, Del-Penho e Malta reavivam com propriedade o samba cheio de bossa Doralice (Dorival Caymmi e Antônio Almeida, 1945).
Na graciosa faixa arranjada por Alfredo Del-Penho, ouve-se somente o tamborim de Paulinho Dias, marcando o ritmo em sintonia com a inusitada combinação das vozes dos cantores. Álbum à moda antiga que totaliza 14 faixas, Bicudos dois também abre (breve) espaço para sofrência, mas sem perder a altivez, mote do samba Reserva de domínio (1985), outra raridade do repertório.
Com versos descrentes no amor, Reserva de domínio é samba de Mauro Duarte (1930 – 1989) e Paulo César Pinheiro apresentado há 40 anos pelos compositores em gravação com a cantora Cristina Buarque (1950 – 2025), exímia pescadora de pérolas do samba.
A pesquisa de repertório garante o frescor do álbum Bicudos dois e atesta que os cantores são exímios conhecedores da história do samba. Que maravilha é ouvir Falso patriota (Victor Simon e David Raw, 1953), samba lançado por Geraldo Pereira (1918 – 1955) – cantor cheio de bossa – e nunca regravado por outro intérprete!
Outra pérola rara é Cosme e Damião (Wilson Baptista e Jorge de Castro, 1955), samba lançado na voz de Jorge Veiga (1910 – 1979), outro cantor que sabia cair no suingue. Detalhe: na letra do samba, Cosme e Damião não se referem aos santos gêmeos da devoção popular, mas à dupla de policiais que faziam a ronda noturna.
Fora da roda do samba, Alfredo Del-Penho e Pedro Paulo Malta seguem o bloco do compositor folião Lamartine Babo (1904 – 1963) e cantam a marcha Hino do Canto do Rio, composta em 1949 e lançada em 1950 pelo Trio Melodia com o título de Marcha do Canto do Rio.
No fecho do disco, a lembrança do samba O que será de mim (Ismael Silva, Nilton Bastos e Francisco Alves, 1931) reitera a verve e a malandragem sadia que regem o álbum Bicudos dois, com direito a improvisados versos autorreferentes no canto do samba.
Entrosados no canto e no remelexo de sambas como Santinha (Chico Adnet e Mario Adnet, 2022), este vocacionado para um salão de gafieira, Alfredo Del-Penho e Pedro Paula Malta apresentam aos 44 minutos do segundo tempo de 2025 um dos grandes álbuns brasileiros do ano. Bicudos dois é disco irretocável!
Capa do álbum ‘Bicudos dois’, de Alfredo Del-Penho e Pedro Paulo Malta
Isabela Espíndola

Fonte: G1 Entretenimento

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