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Home»Entretenimento»Como Tyler, The Creator resgata a dança no hip-hop no novo álbum ‘Don’t Tap The Glass’
Entretenimento

Como Tyler, The Creator resgata a dança no hip-hop no novo álbum ‘Don’t Tap The Glass’

julho 29, 2025Nenhum comentário0 Visitas

Como Tyler, The Creator celebra resgata a dança no hip-hop em novo álbum
Mesmo em 2025, lançar um disco de rap que convida à dança ainda é algo ousado. Mas foi exatamente isso que Tyler, The Creator fez em “Don’t Tap The Glass”, seu novo álbum. A proposta é simples: largar o celular e se mexer.
O rapper aposta no corpo em movimento como forma de expressão — algo que sempre fez parte do hip-hop, mas foi deixado de lado ao longo dos anos. Com referências à chamada “era de ouro” do rap, o disco mistura nostalgia com uma visão moderna do gênero.
“Hip” significa quadril. “Hop” é salto. O nome hip-hop já dizia: essa cultura nasceu para movimentar o corpo. Mas, com o tempo, a dança foi deixada de lado.
O amadurecimento de Tyler, The Creator
Capa do álbum “Don´t Tap The Glass” de Tyler, The Creator
Redes sociais / divulgação
Tyler Okonma, de Los Angeles, ficou conhecido como líder do coletivo Odd Future, com letras polêmicas, postura subversiva e shows caóticos — chegou a ser temporariamente banido do Reino Unido em 2015.
Construiu uma carreira multifacetada: começou com a rebeldia dos primeiros discos (Goblin, Wolf), passou pelo sentimentalismo em Flower Boy e IGOR, e acumulou prêmios, turnês e controvérsias. Parte do público mais conservador do rap criticava sua forma pouco convencional de se expressar artisticamente.
Mesmo num ambiente que valorizava a frieza, Tyler sempre buscou formas alternativas de mostrar seus sentimentos. Em clipes como o de “EARFQUAKE” e nas performances da era “Chromakopia”, ele dança, tropeça, se dobra e brinca — mais preocupado em deixar os sentimentos fluírem do que em parecer “cool”.
O endurecimento dos quadris
Ja Rule, DJ Kool Herc e Grandmaster Flash, fotografados por volta dos anos 2000
David Corio/ Getty Images
O hip-hop surgiu nas festas das periferias de Nova York nos anos 70, criado por comunidades negras e latinas. Nelas, DJs como Kool Herc promoviam batalhas de dança — as cyphers — tão importantes quanto as batalhas de rima.
A dança está no próprio nome da cultura: “hip” (quadril) e “hop” (pulo). O breakdance — ou só break — surgiu nesse contexto, com passos influenciados por jazz, funk, disco, soul e até artes marciais como o kung fu. Os filmes de kung fu, aliás, eram muito populares entre comunidades negras na época por serem acessíveis nos cinemas locais.
A dança dava autoestima, promovia expressão coletiva e servia até para resolver conflitos entre gangues — trocando brigas por batalhas de dança. Com o tempo, o movimento corporal se espalhou e ganhou estilos próprios em diferentes partes dos EUA, como o booty shake de Miami e o footwork de Chicago.
Mas nos anos 90, com a ascensão do gangsta rap e a busca por uma imagem mais “durona”, a dança perdeu espaço. O machismo e o conservadorismo fizeram com que muitos se afastassem da pista — só restava o gesto de balançar a cabeça.
Nos anos 2000 e 2010, as redes sociais e os celulares trouxeram outro medo: dançar em público virou risco de virar meme. Em um ambiente tão agressivo como o das redes, o hip-hop, que nasceu da união entre música e corpo, viu seu público ficar com o quadril travado
Menos blábláblá e mais dança
Clipe de “Stop Playing With Me” de Tyler, the Creator
Divulgação
Depois da introspecção de Chromakopia, Tyler volta em 2025 com um disco direto ao ponto: “Don’t Tap The Glass” foi feito em seis meses, ainda durante a turnê do álbum anterior, e tem como foco fazer o público dançar sem vergonha.
Na faixa de abertura, “Big Poe”, ele já dá o recado: a ordem é se mexer, celebrar as conquistas e proteger o ambiente — não encoste no vidro. A “vidraça” funciona como metáfora dupla: é um convite para deixar o celular na mão e, ao mesmo tempo, um pedido de respeito aos limites — os seus e os dos outros — criando zonas seguras para o corpo se expressar.
Nas redes sociais, Tyler contou que, após uma audição do álbum, perguntou a amigos por que eles não dançam em público. A resposta de muitos: medo de serem filmados.
Ao longo do disco, esse é o tom: menos drama, mais ironia e afirmação pessoal. Canções como “Stop Playing With Me” fazem piada com rivais e até com o uso de remédios para emagrecer. Já “Ring Ring Ring” e “Tell Me What It Is” tocam em vulnerabilidades, mas com leveza, longe da carga emocional dos trabalhos anteriores.
As referências da capa
Montagem com a capa do álbum “Don´t Tap The Glass” de Tyler, The Creator, framde do clipe “Run’s House” do Run DMC e frame do clipe “I’M Bad” de LL Cool J
Divulgação / reprodução
“Don’t Tap The Glass” soa como um túnel do tempo adaptado ao presente. Na capa, Tyler aparece animado, com boné vermelho, corrente de ouro e punhos em pose de b-boy — um tributo ao visual clássico dos anos 80. Os clipes têm estética de fita VHS, e em “Stop Playing With Me” há referências a Jamiroquai e vídeos icônicos do rap.
A sonoridade é puro flerte com o passado: samples de jazz, soul e funk, scratches e a bateria Roland TR-808, símbolo do rap dos anos 80. Tudo é feito para movimentar o corpo: refrões marcantes, grooves envolventes e batidas que convidam a ocupar a pista.
As letras deixam de lado o tom melancólico dos álbuns anteriores e apostam no humor ácido, nos autoelogios e nas provocações. Destaque para faixas como “Sucka Free” e “Sugar On My Tongue”.
Ao longo do projeto, Tyler recupera nomes e estilos regionais do hip-hop, reutiliza samples de Busta Rhymes, faz referência à cultura pop and lock e presta homenagem não só aos MCs, mas também aos dançarinos anônimos — aqueles que precisam de coragem para se soltar.
Álbum é um manifesto
No fim das contas, “Don’t Tap The Glass” vai além de um álbum dançante. É um manifesto para reconectar o hip-hop ao corpo, relembrando um dos quatro pilares da cultura: DJ, MC, breakdance e grafite.
Tyler, The Creator agora ergue a bandeira da dança. Defende espaços onde a alegria não seja julgada, filmada ou ridicularizada. Em uma época em que poucos MCs se arriscam a fazer o público dançar, ele propõe o oposto: rir, performar, ser vulnerável — e ocupar de novo a pista do hip-hop com liberdade e verdade.

Fonte: G1 Entretenimento

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